Os trabalhos de reconstrução gráfica da Igreja Matriz São Luiz Gonzaga, no Centro de Brusque, avançam para a modelagem tridimensional da estrutura. Desenvolvida desde 2025 pelo grupo Forma do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIFEBE, a iniciativa prevê o estudo e a produção de materiais científicos dedicados ao processo utilizado e a diferentes aspectos propostos pelos pesquisadores.
A análise, conduzida por acadêmicos e professores do grupo de pesquisa, examina os projetos originais do arquiteto alemão Gottfried Böhm e a estrutura atual da igreja. Outras iniciativas incluem a tradução de livros de Arquitetura e Urbanismo e a elaboração de uma ação educativa em escolas locais.
Atualmente, após o acesso e os estudos focados nos planos bidimensionais e plantas da época da construção da igreja, o grupo trabalha na reprodução tridimensional da estrutura. A estimativa do coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da UNIFEBE e membro do Grupo Forma, professor Marcelius Oliveira de Aguiar, é de que o trabalho de modelagem tridimensional esteja concluído em 70%, ainda necessita de complementos, como mobiliário e texturas.
Conforme o coordenador, embora o processo seja exigente, as atividades estão sendo desenvolvidas sem o uso de programas que trabalhem com o modelo matemático NURBS (Non Uniform Rational Basis Spline) para a criação e representação de superfícies tridimensionais. O grupo, segundo ele, tem utilizado alternativas gratuitas para a modelagem, reforçando os conhecimentos e as práticas já aplicados nas atividades do curso.
Atenção ao projeto
Na avaliação do coordenador, adotar o redesenho e a reconstrução gráfica como parte da rotina de estudos dos estudantes é uma forma de reforçar o estudo detalhado e atento da arquitetura. Ele cita como referência o enfoque adotado pelo arquiteto espanhol Hélio Piñon.
Na abordagem, adotada a partir da 2.ª fase da formação, utilizam-se, como exemplo, obras de teor verificado previamente pelos professores são usadas como exemplo e serve de objeto de estudo para os estudantes.
“Se preciso redesenhar as paredes, por exemplo, tenho de compreender as aberturas, as portas, como o arquiteto as entendeu, se há uma modulação, qual o ritmo que ele utilizou para determina-las, se influências específicas de matemática, da proporção áurea, da sequência de Fibonacci. São questões que se consegue responder fazendo a análise, uma vez que se estuda realmente essa obra”, explica.
Mesmo diante da exigência de tempo e técnica do processo, o coordenador acredita que esse enfoque contribua para o refinamento técnico dos acadêmicos. Ele também destaca a possibilidade de aplicar essa abordagem em diferentes contextos da vida profissional ou acadêmica dos futuros arquitetos e urbanistas, como estímulo à retomada e o incentivo da técnica.
“Entendemos que isso engrandece muito o processo de aprendizado do acadêmico de Arquitetura e Urbanismo. Ele compreende o quão importante isso é para sua formação e para a concepção não só de projetos arquitetônicos, mas também de projetos de interiores, qualquer coisa que utilize essa lógica”, descreve. “É uma abordagem bem-sucedida e acreditamos que nos trará bons frutos, pois se trata de uma construção, de um enfoque que estamos adaptando ao modus operandi do Brasil, à forma como entendemos cada projeto”.
Conhecimento compartilhado
O estudo detalhado da Igreja Matriz São Luiz Gonzaga é parte importante de um projeto que envolve diferentes propostas simultâneas, como relata o professor da UNIFEBE, Rudivan Luiz Cattani. Paralelamente ao estudo, o grupo trabalha na tradução de dois livros espanhóis sobre arquitetura. Em ação conjunta com o núcleo de Santa Catarina do Comitê Internacional para a Documentação e Preservação de Edifícios, Sítios e Unidades de Vizinhança do Movimento Moderno (DOCOMOMO, na sigla em inglês), o grupo pretende elaborar maquetes desmontáveis do edifício para distribuição nas escolas locais.
A ação, indica o professor, é uma maneira de preservação histórica desse momento da arquitetura, afirma o professor. “A Igreja (Matriz São Luiz Gonzaga) é de um período da arquitetura chamado Arquitetura Moderna e também é histórica, só que a roupagem dela é como essa”, explica. “Assim como vários outros edifícios têm uma roupagem muito atual”.
Na avaliação do professor, as iniciativas não só revisitam boas práticas de arquitetura, como também estimulam a preservação e valorização da arquitetura moderna, o desenvolvimento de boas soluções e a ampliação do conteúdo científico sobre o tema. Segundo ele, as traduções também devem possibilitar um aumento de referências em português sobre o tema, consideradas limitadas pelo pesquisador.
De acordo com ele, outro benefício proporcionado pelo projeto é o intercâmbio de conhecimentos com grupos de pesquisa focados no tema, e que terão acesso aos resultados da iniciativa com a Igreja brusquense. Quanto à formação dos acadêmicos com o enfoque, ele salienta a possibilidade de um entendimento mais preciso sobre os processos envolvidos na ação.
“Estamos falando de algo básico: saber como se constrói. Não podemos deixar de lado. O arquiteto precisa saber as dimensões, e os materiais utilizados e saber aplica-los em um projeto adequado, com iluminação e aberturas. É preciso ter uma certa dinâmica histórica embutida no edifício para saber o momento histórico em que se está vivendo, até porque há uma tendência de resgatar elementos do passado que já foram superados”, descreve.
Apoio em boas arquiteturas
Segundo Thiago Mendes, professor e integrante do Grupo Forma, ao adotarem a reconstrução gráfica e o redesenho como parte do fluxo de trabalho e de estudo, os acadêmicos compreendem melhor os processos e desenvolvem habilidades fundamentais. Com essa abordagem, ele ressalta a possibilidade de uma compreensão mais precisa dos diferentes métodos e soluções adotados em diversos projetos consagrados, ou seja, “apoiar-se em boa arquitetura”.
“Isso é uma das coisas que mais me entusiasma. Esses resultados e produtos extrapolam, a questão cultural e geográfica da cidade. Ter uma igreja de um Pritzker, alemão, falecido e ter essa quantidade de informações faz com que a cidade ultrapasse seus próprios limites, projetando-se para o mundo. A coisa está na cidade, mas não é somente de Brusque, ela participa do debate mundial em termos de cultura e arquitetura”, descreve.
De acordo com ele, para além dos estudos acadêmicos e documentação, a reprodução fiel da estrutura da Igreja Matriz São Luiz Gonzaga permite prever de danos a desgastes da construção. “Quando se redesenha um prédio, é possível dominar melhor o estudo arquitetônico e os processos. Se refazemos o caminho de quem projetou e quando essa obra está construída é melhor ainda, pois temos a possibilidade de verificar a obra e a representação dela em desenho”, avalia. “É ensinar a projetar projetando”.