Ela também destacou a contribuição da experiência para a observação de aspectos por uma perspectiva diferente das permitidas por desenhos, fotografias ou representações digitais. Como parte da atividade, visando estimular a observação e interação com os espaços, parte do deslocamento no roteiro foi feita a pé. Essa medida, segundo ela, facilita a observação das relações de escala, continuidade, transição e conexão entre os espaços urbanos.
“A viagem de estudos cria uma oportunidade para que o acadêmico confronte o que aprendeu em sala de aula com a cidade real. Ao caminhar, observar e experimentar os espaços, ele percebe que a arquitetura não é um objeto isolado, mas parte de relações sociais, culturais, ambientais e urbanas que precisam ser compreendidas antes de qualquer intervenção”, afirma.
Centro Histórico, Arquitetura Moderna e Concreto e Habitação, Escola e Natureza foram os eixos definidos para uma viagem de estudos realizada à cidade de São Paulo com acadêmicos da UNIFEBE. O roteiro, acompanhado pelos professores Alexssandra da Silva Fidelis, Francisco Alberto Skorupa, Karol Carminatti e Anderson Buss, reuniu, em sua maioria, acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo, além de estudantes de outros cursos da instituição.
Na capital paulistana, o foco do roteiro foi em obras arquitetônicas, espaços públicos, equipamentos culturais, conjuntos urbanos e instituições. Para a professora Alexssandra da Silva Fidelis, a experiência de aprendizagem em campo permite que a própria cidade seja utilizada como objeto de observação, análise e reflexão.
Segundo ela, o objetivo é que os estudantes relacionem os conteúdos trabalhados no contexto do curso com o que está disponível no espaço urbano. Conforme a professora, a atividade possibilitou abordar diferentes períodos arquitetônicos vividos pelo centro da cidade e observar diferentes linguagens arquitetônicas, escalas de intervenção e as formas de relação entre edifícios, espaços públicos, cultura, habitação e cidade.
“Mais do que conhecer edifícios reconhecidos pela qualidade arquitetônica, a proposta foi estimular os acadêmicos a observar como a arquitetura se relaciona com as dinâmicas sociais e culturais de uma metrópole”, indica.
Múltiplas formas
O roteiro percorrido pelos acadêmicos incluiu Casa de Vidro, referência da arquitetura moderna brasileira. Além do Viaduto do Chá, o Vale do Anhangabaú, a Praça do Patriarca, a Catedral e a Praça da Sé, o Pateo do Collegio, a Praça das Artes e o Sesc 24 de Maio.
O grupo ainda pôde conhecer a Ocupação 9 de Julho, o Edifício Copan, a Galeria Metrópole, a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), o Memorial da América Latina, as unidades do Sesc Pompéia e Paulista, o Instituto Moreira Salles, o Conjunto Nacional, o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (MASP), a Cidade Matarazzo e o Itaú Cultural.
A diversidade dos locais, segundo ela, permitiu estabelecer relações entre arquitetura, cultura, patrimônio, habitação e apropriação social dos espaços. A presença da Ocupação 9 de Julho no roteiro também é indicada como um motivador para a discussão acerca da habitação e do direito à cidade.
“São Paulo permite uma experiência particularmente rica, pois reúne, em seus diferentes territórios, múltiplas formas de produção da cidade. Para o estudante de Arquitetura e Urbanismo, observar essas relações diretamente significa ampliar não apenas seu repertório, mas também desenvolver sua capacidade crítica, pois permite compreender como determinado espaço foi produzido, quem o utiliza, como é apropriado e quais questões permanecem em aberto”, avalia a professora.
Arquitetura além do objeto
O coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo, professor Marcelius Oliveira de Aguiar, reconhece a importância das experiências fora de sala para a formação acadêmica. De acordo com ele, o modelo adotado para a atividade amplia horizontes dos acadêmicos e lhes permite o contato com realidades e referências variadas.
“Isso enriquece uma trajetória que estamos construindo junto com eles”, avalia. “São vivências que complementam a formação profissional e também contribuem para formar pessoas mais atentas ao contexto em que estão inseridas, além de prepará-las para pensar soluções e transformar os espaços onde irão atuar”, pontua.
O acadêmico de Arquitetura e Urbanismo, Juliano Alexandre de Oliveira, avalia a experiência como importante para o processo de formação, sobretudo por oportunizar vivenciar, de forma presencial, obras e espaços que ele estava acostumado a ver em fotos, desenhos ou conteúdo de estudo. “O roteiro possibilitou compreender a arquitetura não apenas como objeto construído, mas também como parte da história, da cultura e da dinâmica urbana da cidade”, avalia.
Durante o roteiro, ele destaca a oportunidade de conhecer a Cidade Matarazzo, a Catedral da Sé, além do MASP. Segundo ele, enquanto a relação entre patrimônio histórico e arquitetura contemporânea sua chamou a atenção na Cidade Matarazzo, a experiência proporcionada pela visita à Catedral da Sé é totalmente diferente. O acadêmico exemplifica pela grandiosidade do espaço, pela verticalidade, pelos vitrais e pelos detalhes da catedral em estilo neogótico.
“Mas, entre todos os lugares visitados, o MASP foi talvez aquele que mais despertou meu olhar como estudante de arquitetura. O projeto de Lina Bo Bardi é muito mais do que um museu, ele estabelece uma relação direta com a cidade”, descreve. “Cada um deles representa momentos, linguagens e formas diferentes de compreender a arquitetura”.
Segundo o acadêmico, a viagem contribuiu para ampliar o repertório arquitetônico e proporcionar um olhar crítico sobre os projetos e a cidade. “O principal aprendizado da viagem foi justamente sair da teoria e experimentar a arquitetura presencialmente. Estar diante dessas obras permite perceber escala, proporção, materiais, estrutura, circulação, relação com o entorno e até a maneira como as pessoas utilizam os espaços”, descreve.